O que a Finlândia me ensinou

Recentemente escrevi uma série de coisas que faço na Finlândia e não fazia no Brasil (Parte 1 e Parte 2) e vice-versa.

Entretanto, ter mudado para a Finlândia não foi apenas uma mudança de costumes e rotina para mim. Na verdade foi muito mais: aprendi e continuo aprendendo muito. Não falo aqui de aprender a língua ou os costumes locais mas, por incrível e mais inesperado que pareça, aprendi e aprendo muito sobre mim mesmo e sobre o mundo. Está aí uma experiência inigualável e que eu definitivamente não antecipava antes de vir para cá.

A primeira coisa que aprendi é que não sou especial; que não tenho nenhum destino fantástico reservado para mim. Pelo menos não sou mais especial do que qualquer outra pessoa. Por algum motivo bizarro nunca tinha percebido como me achava especial. Talvez tenha sido educação ou algum outro desvio qualquer mas sempre achei que eu tinha um “X” que me destacava dos demais. Minha história de vida me dava razões para crer nisso: na escola e faculdade sempre estive muito além da média com mínimo esforço e profissionalmente também sempre tive mais sucesso que a média - sem muito esforço também. Imaginava que seria apenas questão de me esforçar para ser a pessoa mais especial do universo.

Fato é que a Finlândia me mostrou que não sou nada especial. De uma hora para a outra olhei ao meu redor e vi que o mundo é cheio de pessoas especiais - cada qual do seu jeito - e que não sou mais especial do que meu próximo. Não sou mais especial do que ninguém. Não tenho nenhum destino pré-traçado só para mim. Engraçado que tive que me mudar para um lugar com tão pouca gente para perceber que existe muita gente no mundo.

Aprendi também que muita coisa não importa na vida. Na verdade, a maioria das coisas que pensamos que importa, não podiam importar menos. Isso vai desde coisas materiais que acumulamos até à valores exagerados que damos a certas idéias, conceitos ou atividades. Pouco na vida importa de verdade e a real felicidade não está em nada que vem de fora e sim em nós mesmos. Foi isso que aprendi: eu apoiava minha felicidade numa série de preceitos que nunca existiram ou nunca iriam existir. Apoiava minha felicidade sobre o sucesso profissional, por exemplo, e aprendi que o sucesso profissional é relativo: vale mais fazer o que se gosta ganhando mau ou que paga bem e que não se gosta por exemplo. Apoiava minha felicidade sobre amigos e parentes e sobre a aceitação que tinha no meio deles e aprendi que estava apoiando minha felicidade mais nas atividades com estes amigos e parentes do que no amor que eu deveria ter à eles e vice-versa.

Aprendi e aprendo muito ainda mas estas duas lições dão uma boa idéia da ponta do iceberg.

Tiago Luchini · 10 Feb 2009