Tragédias "inesperadas"
Tragédias acontecem. Uma bem grande está acontecendo em St. Catarina. Quase 55.000 pessoas desabrigadas, cerca de 100 mortos e um absurdo de aproximadamente 400.000 famílias sem eletricidade. São números assustadores. Só o número de famílias sem eletricidade já seria o suficiente para destroçar a economia inteirinha da Finlândia.
Nada impede entretanto que nos protejamos de tragédias. Claro que é impossível cobrir todas as brechas mas somos seres inteligentes e organizados o suficiente para conseguir cobrir boa parte desses riscos. Um desses riscos inclusive é a chuva. O Brasil é um país tropical com chuvas tropicais o que, em outras palavras quer dizer: vai chover e chover muito durante a época de chuvas. Assim simples.
Não tem jeito, papai do céu fez assim e vai chover muito. O que é inaceitável é que a chuva sempre nos pegue desprevenidos. Desde que me conheço por gente existem desabamentos e alagamentos. É só chover e pronto: lá está tudo alagado e as pessoas estão ou morrendo soterradas em algum lugar ou de alguma doença transmitida pela água. A chuva nos pega de calças-curtas como se não lembrássemos da última chuva.
Alguns podem argumentar que “choveu mais esse ano que o ano passado” e coisas do tipo mas fato é que ano que vem, vai chover de novo. Muito provavelmente mais do que esse ano e é para isso que precisamos estar preparados. Para isso papai do céu nos deu um negócio que poucos usam mas que é chamado de “memória”.
Outros alguns podem argumentar que somos um país pobre, sem recursos para cuidar das vidas dos nossos compatriotas. Mentira! O governo federal repassou, em 2008, R$ 2,4 milhões para serem usados em obras preventivas, como contenção de encostas e canalização de córregos, para Santa Catarina, enquanto mais de R$ 7,4 milhões, por exemplo, foram encaminhados por meio do programa de “resposta aos desastres” para o estado, ou seja, o triplo de recursos para remediar, e não prevenir.
Atiramos no alvo errado portanto. E o problema vai além: do montante global previsto no orçamento 2008 para o programa preventivo em todo o país, R$ 375,9 milhões, apenas R$ 97,8 milhões foram gastos até o último dia 21 (incluindo os “restos a pagar” – dívidas de anos anteriores roladas para exercícios seguinte), ou seja, 26% do total. Somente R$ 15,1 milhões da ação de “apoio a obras preventivas de desastres”, por exemplo, foram desembolsados de uma dotação autorizada de R$ 292,7 milhões, o que representa menos de 6%.
Aqui na Finlândia neva. Todo ano neva. Alguns anos muito, outros pouco mas fato é que neva. Preparar-se para a neve é complicado e extremamente custoso. Envolve toda uma “indústria da neve”: os milhares de trabalhadores que tiram neve de um lado, levam para outro; colocam cascalho nas calçadas; jogam sal nas ruas… e o ciclo repete-se infinitamente enquanto houver neve. Vale lembrar que a neve não vai embora tão fácil como a chuva: é preciso fazer alguma coisa com ela! Se parte do sistema for ineficiente as pessoas ficam ilhadas, os serviços param e pessoas morrem. Está havendo uma nevasca em Helsinki como esta semana? Todas as companhias aéreas cancelam seus vôos exceto a Finlandesa Finnair. Afinal de contas, estar preparado para a neve é o mínimo. Tenho certeza que boa parte do que pago de tributos acaba indo “ralo-abaixo” com a neve - mas sou grato por isso.
Não me é estranho que os Finlandeses nem tenham o verbo “nevar”. Para eles, “chove neve”, “chove gelo” e outras variações. Poderíamos aprender com eles como nos preparar para quando “chover água”.
Números via: Contas Abertas
