Sinceridade

Uma característica dos Finlandeses que tenho aprendido a apreciar muito é a sinceridade.

O Finlandês não quer saber se você vai gostar ou não da resposta dele. Ele não é político e não vai ficar dando voltas para falar o óbvio. Se ele não gosta de você, ele fala na lata. Se você fez algo que o desagradou, ele fala sem titubear. E não importa à quem a mensagem se dirija. Pode ser para o presidente mais respeitável da empresa, se ele desagradar, será informado.

Engraçado que o Brasileiro é totalmente o oposto. Queremos evitar machucar os outros. Todo mundo é amigo de todo mundo e vamos passando a mão aqui, a mão ali: querendo amaciar todas as diferenças. Esperamos que todo mundo seja feliz como num gigantesco comercial de cerveja. Falamos as coisas com cuidado, sempre aproximando devagar.

Fico no meio desses dois mundos e sinto o universo brasileiro tão fora de sintonia às vezes.

Para resolver um problema profissional um parceiro Finlandês chega, pergunta, resolve e vai embora. Um paralelo brasileiro precisa de um “tempo de aquecimento”, nunca começa sem um bom-dia, boa-noite, etc. Depois quer saber como vão “as crianças lá em casa” (como se meu único filho fosse um batalhão de crianças). Depois de uma ou duas piadas sujas que ele ouviu no dia, ele começa com algo como “olhá, eu não queria incomodar e espero que ninguém do seu time fique chateado mas…”

Deu para entender?

Confesso até que nem sabia direito como descrever uma pessoa sincera com a carga cultural que herdei. Enquanto uma pessoa sincera é aquela que não mente, aprendi desde bem novo que pequenas mentiras (ou “white-lies” como os americanos chamam) fazem parte - às vezes muita parte. Para evitar um white-lie, só fazer alguma dissimulação desde que se lembre que, para o brasileiro, o importante é deixar nunca ser sincero.

Como Sérgio Buarque de Hollanda resumia: somos um povo cordial - o Brasileiro, ser-cordial.

Fico preocupado para onde esta cordialidade nos leva. A cordialidade exagerada a ponto de ser  pura hipocrisia é totalmente descenecessária. A maioria de nós brasileiros está nesta faixa.

Abaixo o famoso vídeo onde o finlandês Kimi Raikkonen é extremamente sincero antes do GP do Brasil de 2006. Nada mais natural…

PS.: se você ouvir da minha boca ou ler da minha escrita algumas sinceridades - tente não se magoar - estou apenas sendo mais prático (aliás, afirmar nossa hipocrisia brasileira não é nada mais do que a mais pura sinceridade).

Tiago Luchini · 12 Nov 2007 · finland