Meio-ambiente

Hoje é o Dia de Acão dos Blogs (Blog Action Day). Milhares de blogs pelo mundo estão promovendo discussões sobre o meio-ambiente e penduricários ao redor do tema.

Estamos destruindo o meio-ambiente. Ponto. Todos sabemos disso. O complicado é parar de destruí-lo.

Infelizmente não estamos nem perto de solucões: por mais que propagandeiam que a humanidade está “melhorando” no trato ao meio-ambiente, na prática sabemos que nossas ações promovem muito pouco em termos de melhorias reais.

Fico irritado quando o sistema tenta empurrar as responsabilidades ambientais para nós, pobres membros da massa dos zés ninguém. Muito irritado. É o tempo todo assim: quando o assunto é meio-ambiente sempre tem aquela reportagem sobre a quantidade de lixo que cada pessoa gera por ano ou a quantidade média de poluentes que um zé ninguém (você e eu) gera por ano. É simplesmente muito irritante.

Se você acompanha outros blogs, vai ler hoje uma série de dicas para VOCÊ colaborar com o meio ambiente. Vai ler coisas óbvias como: ande menos de carro. Sabemos que andar menos de carro é importante tanto para o ambiente, quanto para sua saúde e até para o seu bolso (um custo a menos). Mas vamos ser sinceros: qual sociedade que não valoriza o status do automóvel? Ou pior ainda: quais cidades que se organizam de modo que possuir um automóvel não é praticamente obrigatório? Ou ainda muito pior: por acaso o sistema de produção sobre o qual se baseia o capitalismo não vai querer que você se entupa de dívidas com um carro? Carro é status, poucas cidades permitem uma locomoção razoável sem um e montadoras e financeiras querem que você tenha a maior, mais cara e mais poluente unidade.

Quer outro exemplo? Alguém vai recomendar que VOCÊevite gerar horrores de lixo doméstico. O lixo doméstico é um problema: produzimos e jogamos fora coisas que vão dar muito trabalho para a natureza degradar - se ela conseguir inclusive (a garbologia tem trazido várias revelações assustadoras sobre o tema). Mas vamos ser sinceros: aquela fábrica de bolachas, ou aquela de chocolates finos - daquelas que enchem o produto de embalagens lindas, estravagantes, deliciosas aos nossos olhos, cheias de plástico e outros derivados - estas fábricas não estão nem se lixando com o meio-ambiente. Elas querem é abocanhar um pedaço da nossa renda mensal e ponto-final. Podem até mudar os materiais que estão utilizando, mas não vão simplificar as embalagens - pelo contrário - o povo (nós, zé ninguéns) quer sempre mais.

Eu não engulo essa responsabilidade.Faço minha parte sim mas não sou ingênuo a ponto de viver totalmente sem carro ou de produzir menos lixo. Muito menos acredito que a maioria das pessoas vai, por um remoto acaso, tomar alguma providência para mudar qualquer coisa real. O sistema que nos cerca é muito maior e totalmente contrário aos movimentos de “revolução” para proteção da natureza.

Recentemente comprei um par de fones-de-ouvido para o computador. Eu não queria gastar com isso: estava totalmente feliz com algum bem simples que tinha vindo de brinde em algo que comprei há alguns anos. O problema é que estes produtos são feitos para durar, no máximo, 3 anos e quebram com uma facilidade tremenda. Lá se foi para o meu lixo, algumas preciosas gramas de plástico que vão perdurar uns 500 anos na natureza.

O novo fone veio todo emperequetado numa elaborada caixa de plástico que dava dó de desmontar. Mais algumas gramas de plástico-veneno para o lixo. Vale lembrar que eu estaria muito satisfeito se o fone viesse enrolado num saco-de-pão, ou seja, a culpa não é minha!!! Não venha me pedir para reduzir o meu lixo. Façam fones que durem uns 50 anos e enrolem-os em papel biodegradável - mas qual fábrica iria se interessar por isso?

Se alguém se importa em saber realmente a verdade, preciso confessar: a verdade é que já destruímos totalmente o meio-ambiente faz muito tempo. Não tem mais volta. Essas campanhas de “proteção ambiental” são só formas que o sistema encontrou para reforçar o status quo do próprio sistema falido. Duvida? Enquanto discutimos “meio-ambiente” mais e mais milhões de pessoas passam fome porque outros “milhões” consomem cada vez mais recursos. Se você está lendo isso, certamente faz parte dos milhões que consome demais enquanto semelhantes nossos morrem de fome.

Eu e você entramos no círculo porque fazemos o jogo do sistema. Sem considerar a quantidade de plástico que joguei fora com essa troca de fones-de-ouvido, ainda tem a quantidade de dinheiro que coloquei nisso. Certamente o suficiente para alimentar muitas pessoas.

Discutir meio-ambiente é só uma das máscaras para esconder o fato que o sistema em que vivemos já teve o atestado de óbito assinado há muito tempo.

Tiago Luchini · 15 Oct 2007 · filosofando